Texto que escrevi em resposta a um e-mail.
Eu tinha uma fantasia de que todas as pessoas (pelo menos as bem intencionadas) ansiavam, quando não trabalhavam, por uma sociedade baseada na liberdade, na igualdade e na fraternidade. Sei muito bem que esse é o dístico da Revolução Francesa e sei de onde ele vem, e também sei o que diversos pensam por causa disso ("mas olha bem de onde e de quem veio isso"). Sei disso e continuam me parecendo que são os princípios ideais em que uma sociedade deveria se basear.
Mas não estou aqui para defender esses princípios, mas para dizer que, tristemente, cheguei à conclusão de que não é isto que as pessoas buscam. Sim, aqueles ideais surgiram a partir de um processo histórico e psicológico pelo qual, aparentemente, a maioria não passou nem teve conhecimento.
Tristemente, cheguei à conclusão que o que as pessoas querem é, simples e até redundantemente, obter aquilo que desejam.
É isso que as pessoas entendem como felicidade.
Então, se a pessoa deseja a casa própria e a recebe, fica satisfeita, não importa se os tanques estão na rua.
Se o camarada quer o carro do ano e o consegue, tanto faz se a imprensa é livre ou não.Se eu posso comer todo dia, ou se posso comer caviar todo dia (independe da classe social), não me importo de ter a boca calada.
As pessoas não mais pedem que o pai afaste o cálice, aquele cálice de vinho tinto de sangue.
Tanto faz. Eu tenho o que eu quero. É isso que eu quero.
O mundo hoje mostra isso. A China é o melhor exemplo e, infelizmente, está longe de ser o único. Casa para o pobre e Porsche para o rico. E fiquem quietos. E as pessoas adoraram, os protestos sumiram. Protestar por quê? O Grande Irmão nos dá tudo - na mão. Quem poderá se queixar?
E estamos nessa. Pessoas ao redor do mundo trocando sua liberdade pela gaiola de ouro. E quem melhor sabe manipular esse desejo das massas consegue se manter no poder. Poder para quê? Para tudo poder. E viva o despotismo. Viva os "déspotas esclarecidos" que de tudo nos provêm. A ti me curvo, se me dás o pão de cada dia.
Receio que isso se dê por que não fomos capazes de educar as pessoas. NÃO! Receio, isso sim, que permitimos que as pessoas fossem educadas da maneira errada, da maneira que convinha a alguns.
Receio, também, que nossa fuga para o "politicamente correto" seja um dos principais fatores que permitiram o crescimento do totalitarismo. Quando damos total liberdade, também damos liberdade a quem objetiva o fim da própria liberdade. Quando tudo toleramos, também toleramos os intolerantes. E estes crescem.
Encerro lembrando do final do livro "A Revolução dos Bichos" (Animal Farm, no original). Não dava para distinguir quem era porco, quem era gente.
É isso. Falo enquanto posso falar.
Abraços a todos,
Gabriel
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
domingo, 10 de janeiro de 2010
Proibição de símbolos religiosos
Está aí, colocada para a sociedade, dentro de uma pretensa política de defesa dos direitos humanos, a possibilidade da proibição da ostentação de símbolos religiosos, ao menos em locais públicos. É fácil compreender as razões de tal postura. Muitas pessoas se dizem ofendidas ou constrangidas ao entrar em lugares nos quais é exibido um símbolo de algo que consideram uma estupidez, um malefício. Alegam que seus filhos poderiam ser prejudicados por serem forçados a conviver com algo de que seus pais discordam seriamente. Símbolos de uma outra religião – ou mesmo de qualquer religião, dependendo do caso – poderiam, assim, ser considerados como uma violação dos direitos humanos, dado que ofenderiam e cerceariam a liberdade de escolha de cada um. Mas será que essa é a abordagem mais adequada para resolver o problema?
Vamos analisar uma outra situação, bastante diferente no conteúdo mas essencialmente idêntica na forma. Alguém observa um casal homossexual se beijando no restaurante e se sente indignado com tal atitude. Ele vê aquilo como uma agressão aos seus princípios, e portanto a si mesmo. Pior ainda, poderiam estar fazendo isso na frente do seu filho ou filha, dando a eles um exemplo ruim, “desvirtuando-os”, talvez incentivando-os a imitar tal “absurdo”. Poucos leitores deste texto não diriam que o tal personagem é homofóbico. Será que não se passa exatamente o mesmo com aqueles que se sentem ofendidos na presença de símbolos de outra crença?
A solução para o problema da revolta desse indivíduo, dentro dos princípios supracitados, seria aprovar leis que proibissem todo e qualquer casal, independentemente de preferência sexual, de se beijar em público. Mais efetiva ainda seria a lei se proibisse qualquer tipo de manifestação afetiva, até mesmo andar de mãos dadas. Assim não se correria o risco de provocar a revolta em alguém que visse um afeto que não lhe agrada.
A quem uma lei dessas favorece? A quem uma lei dessas agrada? A quem uma lei dessas protege? O que uma lei dessas constrói? Tal lei defende a intolerância, favorece a fobia, agrada aos preconceituosos. No nosso exemplo, aos homofóbicos. No outro, aos fanáticos religiosos.
Se na atualidade há muito mais tolerância com o homossexualismo do que há anos atrás – e não muitos, diga-se de passagem – é porque os homossexuais foram às ruas, ao mercado de trabalho, à vida cotidiana, se mostraram, não se esconderam. Essa foi a mais efetiva das formas de luta pela garantia do direito de serem tratados como iguais.
A garantia da liberdade, em todas as suas formas, passa pela construção da tolerância. E só se desenvolve a tolerância na medida em que somos expostos às diferenças. Se queremos construir um mundo tolerante e livre, devemos garantir que todos tenham contato com a diversidade, que todos manifestem suas posições, suas crenças, seus princípios. Então, pouco a pouco, as pessoas vão se dar conta que aquele seu vizinho que toma banho de chapéu não morde. Mais ainda, as novas gerações crescerão sabendo que há pessoas que tomam banho de chapéu, e vão encarar isso com tranqüilidade. E, se aquele outro vizinho, o que discute Carlos Gardel, porventura morder alguém, deve ser apresentado à sociedade como um exemplo do que não deve ser feito. E assim, paulatinamente, vamos eliminando os ódios absurdos e desnecessários que só servem para minar a harmonia e a paz da sociedade.
E mais! Já pensaram se daqui a pouco me proíbem de usar o símbolo do Grêmio porque algum colorado vai se sentir ofendido? Vão se enxergar...
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
A solução possível
O acordo estabelecido em Honduras, que transfere ao Congresso Nacional daquele país a responsabilidade por decidir o encaminhamento do problema surgido com a deposição de Manuel Zelaya, me parece a única alternativa viável. Ao menos será um processo discutido, sem atropelos, com supervisão tanto nacional quanto internacional, cuja decisão final será difícil de contestar. Isso independentemente de qual decisão seja, é preciso frisar. Vamos ver o que acontece.
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
"Exigências absurdas"
Foi com tristeza que li no boletim ABES INFORMA nº 44, de 30/09/2009, duas declarações atribuindo parte da culpa pela não execução de projetos de água e esgoto a supostas "exigências absurdas" por parte dos órgãos de fiscalização. Uma delas foi feita por um governador, que disse que obras importantes, "capazes de mudar a realidade social", são retardadas com base em detalhes irrelevantes, como a falta de uma rua. A outra foi feita por um ex-presidente da ABES, que disse que as somas realmente aplicadas em obras são proporcionalmente pequenas devido, entre outras, a exigências absurdas dos órgãos de fiscalização. O governador ainda usou a expressão "insensibilidade social".
É bem verdade que muitas leis e normas desse país apresentam requisitos esdrúxulos, desconectados da realidade e mesmo impossíveis de serem seguidos. Porém, pelo que tenho visto nos últimos tempos, não é esse o caso. A fiscalização se defronta muitas vezes com projetos de qualidade bem abaixo da necessária, repletos de lacunas, que não atendem às normas técnicas e que muitas vezes não tem sequer coerência interna. Aspectos importantes não são considerados e dimensionamentos são feitos usando métodos obsoletos.
As consequências da execução de uma obra com base num desses projetos são claras: as instalações não apresentarão o desempenho esperado, isso se de fato conseguirem ser construídas. As redes e estações não funcionarão e serão apontadas como monumentos ao desperdício de dinheiro público.
Entretanto, as pessoas responsáveis por auditar os projetos e apontar as falhas não são vistas como parceiros, mas como inimigos. São acusadas de impedir o progresso da nação e mesmo de estar a serviço de interesses escusos ou oposicionistas.
O mesmo raciocínio vale para os órgãos ambientais, os maiores acusados de retardar o progresso da nação. Quando começaram a atuar realmente de forma séria no licenciamento ambiental, foram mutilados e calados.
As pessoas insistem em considerar projetos e relatórios ambientais como meras formalidades, como punhados de papel que vão ficar arquivados só para que se possa um dia dizer que foram oficialmente recebidos, protocolados. O que interessa é o papel, não a realidade.
Se não exigirmos um mínimo de qualidade nos projetos, não conseguiremos elevar o nível da engenharia nacional. Não é assim que se constrói um país. Ou será que é?
É bem verdade que muitas leis e normas desse país apresentam requisitos esdrúxulos, desconectados da realidade e mesmo impossíveis de serem seguidos. Porém, pelo que tenho visto nos últimos tempos, não é esse o caso. A fiscalização se defronta muitas vezes com projetos de qualidade bem abaixo da necessária, repletos de lacunas, que não atendem às normas técnicas e que muitas vezes não tem sequer coerência interna. Aspectos importantes não são considerados e dimensionamentos são feitos usando métodos obsoletos.
As consequências da execução de uma obra com base num desses projetos são claras: as instalações não apresentarão o desempenho esperado, isso se de fato conseguirem ser construídas. As redes e estações não funcionarão e serão apontadas como monumentos ao desperdício de dinheiro público.
Entretanto, as pessoas responsáveis por auditar os projetos e apontar as falhas não são vistas como parceiros, mas como inimigos. São acusadas de impedir o progresso da nação e mesmo de estar a serviço de interesses escusos ou oposicionistas.
O mesmo raciocínio vale para os órgãos ambientais, os maiores acusados de retardar o progresso da nação. Quando começaram a atuar realmente de forma séria no licenciamento ambiental, foram mutilados e calados.
As pessoas insistem em considerar projetos e relatórios ambientais como meras formalidades, como punhados de papel que vão ficar arquivados só para que se possa um dia dizer que foram oficialmente recebidos, protocolados. O que interessa é o papel, não a realidade.
Se não exigirmos um mínimo de qualidade nos projetos, não conseguiremos elevar o nível da engenharia nacional. Não é assim que se constrói um país. Ou será que é?
domingo, 11 de outubro de 2009
sábado, 26 de setembro de 2009
Infinitas possibilidades
Tenho assistido a telejornais de mais de um canal de TV aberta e lido na Internet notícias acerca dos desdobramentos dos acontecimentos em Honduras. A impressão que me dá é que todos estão francamente favoráveis a Manuel Zelaya e sua volta ao poder. Até onde consigo perceber, quase não se dá espaço a declarações do outro lado, dos assim chamados golpistas. No máximo se faz resumos de notas oficiais, relatados com aquela expressão e tom de "até o pior criminoso tem direito à defesa".
É por isso que me surpreendi ao ler um texto na Internet no qual o autor afirma que a mídia brasileira quase sempre cobre o assunto "em tom irônico ou abertamente ofensivo em relação às vítimas do golpe e benevolente, para dizer o mínimo, com os golpistas".
Mas, não podemos esquecer que o número de possíveis visões e interpretações sobre um mesmo problema é, no mínimo, igual ao número de habitantes do planeta, sem contar que elas podem mudar ao longo do tempo, resultando num número potencialmente infinito de variantes. E sem falar que o que é verbalizado não necessariamente reflete a totalidade do que foi pensado.
É por isso que me surpreendi ao ler um texto na Internet no qual o autor afirma que a mídia brasileira quase sempre cobre o assunto "em tom irônico ou abertamente ofensivo em relação às vítimas do golpe e benevolente, para dizer o mínimo, com os golpistas".
Mas, não podemos esquecer que o número de possíveis visões e interpretações sobre um mesmo problema é, no mínimo, igual ao número de habitantes do planeta, sem contar que elas podem mudar ao longo do tempo, resultando num número potencialmente infinito de variantes. E sem falar que o que é verbalizado não necessariamente reflete a totalidade do que foi pensado.
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