segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O que as pessoas querem - ou, "Receio"

Texto que escrevi em resposta a um e-mail.

Eu tinha uma fantasia de que todas as pessoas (pelo menos as bem intencionadas) ansiavam, quando não trabalhavam, por uma sociedade baseada na liberdade, na igualdade e na fraternidade. Sei muito bem que esse é o dístico da Revolução Francesa e sei de onde ele vem, e também sei o que diversos pensam por causa disso ("mas olha bem de onde e de quem veio isso"). Sei disso e continuam me parecendo que são os princípios ideais em que uma sociedade deveria se basear.

Mas não estou aqui para defender esses princípios, mas para dizer que, tristemente, cheguei à conclusão de que não é isto que as pessoas buscam. Sim, aqueles ideais surgiram a partir de um processo histórico e psicológico pelo qual, aparentemente, a maioria não passou nem teve conhecimento.

Tristemente, cheguei à conclusão que o que as pessoas querem é, simples e até redundantemente, obter aquilo que desejam.

É isso que as pessoas entendem como felicidade.

Então, se a pessoa deseja a casa própria e a recebe, fica satisfeita, não importa se os tanques estão na rua.

Se o camarada quer o carro do ano e o consegue, tanto faz se a imprensa é livre ou não.Se eu posso comer todo dia, ou se posso comer caviar todo dia (independe da classe social), não me importo de ter a boca calada.

As pessoas não mais pedem que o pai afaste o cálice, aquele cálice de vinho tinto de sangue.
Tanto faz. Eu tenho o que eu quero. É isso que eu quero.

O mundo hoje mostra isso. A China é o melhor exemplo e, infelizmente, está longe de ser o único. Casa para o pobre e Porsche para o rico. E fiquem quietos. E as pessoas adoraram, os protestos sumiram. Protestar por quê? O Grande Irmão nos dá tudo - na mão. Quem poderá se queixar?

E estamos nessa. Pessoas ao redor do mundo trocando sua liberdade pela gaiola de ouro. E quem melhor sabe manipular esse desejo das massas consegue se manter no poder. Poder para quê? Para tudo poder. E viva o despotismo. Viva os "déspotas esclarecidos" que de tudo nos provêm. A ti me curvo, se me dás o pão de cada dia.

Receio que isso se dê por que não fomos capazes de educar as pessoas. NÃO! Receio, isso sim, que permitimos que as pessoas fossem educadas da maneira errada, da maneira que convinha a alguns.

Receio, também, que nossa fuga para o "politicamente correto" seja um dos principais fatores que permitiram o crescimento do totalitarismo. Quando damos total liberdade, também damos liberdade a quem objetiva o fim da própria liberdade. Quando tudo toleramos, também toleramos os intolerantes. E estes crescem.

Encerro lembrando do final do livro "A Revolução dos Bichos" (Animal Farm, no original). Não dava para distinguir quem era porco, quem era gente.

É isso. Falo enquanto posso falar.

Abraços a todos,

Gabriel

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