Está aí, colocada para a sociedade, dentro de uma pretensa política de defesa dos direitos humanos, a possibilidade da proibição da ostentação de símbolos religiosos, ao menos em locais públicos. É fácil compreender as razões de tal postura. Muitas pessoas se dizem ofendidas ou constrangidas ao entrar em lugares nos quais é exibido um símbolo de algo que consideram uma estupidez, um malefício. Alegam que seus filhos poderiam ser prejudicados por serem forçados a conviver com algo de que seus pais discordam seriamente. Símbolos de uma outra religião – ou mesmo de qualquer religião, dependendo do caso – poderiam, assim, ser considerados como uma violação dos direitos humanos, dado que ofenderiam e cerceariam a liberdade de escolha de cada um. Mas será que essa é a abordagem mais adequada para resolver o problema?
Vamos analisar uma outra situação, bastante diferente no conteúdo mas essencialmente idêntica na forma. Alguém observa um casal homossexual se beijando no restaurante e se sente indignado com tal atitude. Ele vê aquilo como uma agressão aos seus princípios, e portanto a si mesmo. Pior ainda, poderiam estar fazendo isso na frente do seu filho ou filha, dando a eles um exemplo ruim, “desvirtuando-os”, talvez incentivando-os a imitar tal “absurdo”. Poucos leitores deste texto não diriam que o tal personagem é homofóbico. Será que não se passa exatamente o mesmo com aqueles que se sentem ofendidos na presença de símbolos de outra crença?
A solução para o problema da revolta desse indivíduo, dentro dos princípios supracitados, seria aprovar leis que proibissem todo e qualquer casal, independentemente de preferência sexual, de se beijar em público. Mais efetiva ainda seria a lei se proibisse qualquer tipo de manifestação afetiva, até mesmo andar de mãos dadas. Assim não se correria o risco de provocar a revolta em alguém que visse um afeto que não lhe agrada.
A quem uma lei dessas favorece? A quem uma lei dessas agrada? A quem uma lei dessas protege? O que uma lei dessas constrói? Tal lei defende a intolerância, favorece a fobia, agrada aos preconceituosos. No nosso exemplo, aos homofóbicos. No outro, aos fanáticos religiosos.
Se na atualidade há muito mais tolerância com o homossexualismo do que há anos atrás – e não muitos, diga-se de passagem – é porque os homossexuais foram às ruas, ao mercado de trabalho, à vida cotidiana, se mostraram, não se esconderam. Essa foi a mais efetiva das formas de luta pela garantia do direito de serem tratados como iguais.
A garantia da liberdade, em todas as suas formas, passa pela construção da tolerância. E só se desenvolve a tolerância na medida em que somos expostos às diferenças. Se queremos construir um mundo tolerante e livre, devemos garantir que todos tenham contato com a diversidade, que todos manifestem suas posições, suas crenças, seus princípios. Então, pouco a pouco, as pessoas vão se dar conta que aquele seu vizinho que toma banho de chapéu não morde. Mais ainda, as novas gerações crescerão sabendo que há pessoas que tomam banho de chapéu, e vão encarar isso com tranqüilidade. E, se aquele outro vizinho, o que discute Carlos Gardel, porventura morder alguém, deve ser apresentado à sociedade como um exemplo do que não deve ser feito. E assim, paulatinamente, vamos eliminando os ódios absurdos e desnecessários que só servem para minar a harmonia e a paz da sociedade.
E mais! Já pensaram se daqui a pouco me proíbem de usar o símbolo do Grêmio porque algum colorado vai se sentir ofendido? Vão se enxergar...
heheh gostei
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